De tão grande importância quanto qualquer item aplicado em salas limpas, o “piso” ganha um capítulo especial neste contexto em conjunto a sua arquitetura. A definição de qual piso escolher para o ambiente, está ligada diretamente aos requisitos definidos para o processo, aos requerimentos dos usuários, além de, ter que atender na sua especificação técnica as condições para se enquadrar dentro das boas práticas de fabricação para áreas definidas como salas limpas.

Para a arquiteta Nidia Pape, da Pape Arquitetos e Minerbo-Fuchs Engenharia, “O projeto de arquitetura integra todos os elementos construtivos e seus acabamentos, sempre com o objetivo de se obter uma edificação ou área específica em total conformidade com sua destinação, e o piso é parte deste conjunto”

Em resumo, para o atendimento às necessidade de uma sala limpa, os pisos não devem oferecer condições de propagar a geração ou proliferação de bactérias e de fungos, não devem gerar ou reter partículas, devem ser resistentes a impactos, à abrasão e ao desgaste, facilitar a higienização e limpeza, e serem impermeáveis, sem juntas e apresentarem superfície uniforme.

O piso e a arquitetura

Não existem normas que determinem  especificamente  qual o piso deve ser adotado para as salas limpas, no entanto os ambientes devem atender  integralmente  às condições  das  Boas Práticas de Fabricação ou GMP (Good Manufacturing Practices)  aplicáveis nas atividades de produção, incluindo alimentos, medicamentos, componentes eletrônicos, ferramental médico, entre outros, as quais, para a indústria farmacêutica  são estabelecidas pelos órgãos reguladores  nacionais  – Anvisa,  e internacionais, como FDA  e EMA.  Assim, para tal atendimento devem ser observadas as condições requeridas para estes ambientes.

Conforme a resolução RDC 17 da Agência de Vigilância Sanitária – ANVISA – que dispõe sobre as Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos, encontra-se no artigo 129.  “Nas áreas onde as matérias-primas, os materiais de embalagem primários, os produtos intermediários ou a granel estiverem expostos ao ambiente, as superfícies interiores (paredes, piso e teto) devem ser revestidas de material liso, impermeável, lavável e resistente, livres de juntas e rachaduras, de fácil limpeza, que permita a desinfecção e não libere partículas.” Estes requisitos devem ser totalmente aplicáveis ao se especificar o piso das salas limpas.

Um projeto de arquitetura leva em conta diversos itens, que vão além da definição dos espaços e suas utilizações, organização dos fluxos operacionais e dos sistemas construtivos, seja qual for sua destinação, além de, a definição também dos materiais de acabamentos para estes espaços, que ocorrem baseadas principalmente nas características e destinação dos ambientes onde serão aplicados. Devem ser levados em conta as condições de performance e de manutenção, que tais acabamentos devem atender e propiciar, além do seu aspecto estético.

Análise criteriosa quanto às condições de tráfego de pessoas, de equipamentos e de materiais sobre estes pisos é de grande importância para avaliar sua resistência mecânica, desgaste e aspectos de segurança aos quais serão expostos.  Condições de resistência adequada à eventuais derramamentos de produtos químicos, e às sanitizações constantes, também são itens determinantes para a escolha do piso correto.

Divulgação ACE Revestimento

Tipos de pisos para salas limpas

Conforme o GMP, no item pisos consta que devem ser aplicados materiais impermeáveis, laváveis, livres de juntas e de fácil limpeza e manutenção, que possibilitem sanitizações e assepsias. Devem ser de materiais que não liberem partículas e nem propiciem o acúmulo de fungos ou outros elementos contaminantes.

Atualmente existem basicamente dois segmentos principais para materiais de acabamentos de pisos para salas limpas:

  • Pisos executados como revestimentos monolíticos de alto desempenho, com base de resinas sintéticas, como o epóxi e o poliuretano. Aplicação em múltiplas camadas, autonivelante, argamassado e pintura;
  • Pisos com aplicação de manta vinílica homogênea, sobre superfície regularizada, e juntas termo soldadas.

Entre os dois segmentos disponíveis, estão os pisos:

Pisos em resinas sintéticas monolíticos, sem juntas. Que devem ser aplicados sobre superfícies cuidadosamente nivelada e regularizada, com controle rígido de umidade da base onde serão aplicados, para não apresentarem imperfeições. Sua aplicação deve seguir rigidamente as instruções do fabricante do piso, e devem ser executados por profissional e empresa habilitados e treinados, de forma a garantir sua aplicação e aparência final. Estes tipos de pisos possuem boa resistência ao desgaste, abrasão e resistências contra a maioria dos produtos químicos. Este sistema de revestimento teve grande desenvolvimento para aplicações diversas e se tornou o mais utilizado para a indústria farmacêutica, com boa opção de custo benefício.

Pisos autonivelantes: Aplicação em única camada, com espessura que pode variar entre a mínima de 1,5mm e a máxima de 4,0mm. Revestimento sem poros, com larga utilização na indústria farmacêutica, por possuírem acabamento liso e brilhante.

São de rápida aplicação e apresentam excelente planicidade, desde que bem aplicado.

Possui a desvantagem de possuir menor resistência à abrasão e a impactos, e podem apresentar riscos em sua superfície, requerendo mais vezes de manutenção, para garantir aspecto sempre uniforme e livre de riscos.

Pisos argamassados (espatulados): Possui maior espessura de aplicação, variando de 4 a 6 mm. Devido a sua maior espessura, possui boa resistência a impactos. Na sua execução é feita primeiramente a aplicação da argamassa de base e posteriormente a aplicação da pintura final, em epóxi ou em poliuretano, que irá conferir a cor e a textura do acabamento, que pode ser pintura de alta espessura para selar totalmente a superfície, acabamento antiderrapante ou textura casca de laranja.

Apresenta alta resistência a impactos, à abrasão, fácil manutenção. Possui como desvantagem a condição de dificuldade de se obter espessura uniforme, uma superfície totalmente plana e textura menos lisa. É uma boa opção para recuperação de pisos degradados.

 Pisos Multicamadas ou Multilayer: revestimento aplicado com várias camadas e acabamentos variados, aliando as vantagens do piso autonivelante quanto ao acabamento, planicidade e maior espessura final, e do argamassado quanto a sua resistência final.

Suas vantagens são a alta resistência a impactos e a riscos, ampla gama de texturas e acabamentos, alta planicidade, baixa variabilidade na espessura, menor custo, longa durabilidade e fácil manutenção. Indicado para áreas de tráfego intenso

Desvantagem para este tipo de piso, está no maior tempo requerido para sua aplicação.

Pintura Epóxi: revestimento superficial de aplicação rápida, feita com rolos ou com maquinário específico. A pintura epóxi pode ser com baixa ou alta espessura, dependendo do tipo de utilização.

Este tipo de aplicação é utilizado em geral como manutenção de um outro revestimento já existente, e como manutenção dos pisos argamassados. Possui acabamento superficial, mas, não é adequado quando a base sobre o qual será aplicada apresentar irregularidades.

Pisos vinílicos:  são de fácil aplicação, sem necessidade de sofisticados controle em sua aplicação, exceto que requer uma superfície nivelada e regularizada, para evitar que retratem eventuais imperfeições da base, sobre o qual serão aplicados. São laváveis, possuem resistência à abrasão, à impactos, à produtos químicos. Facilidade de manutenção, limpeza e conservação.

Possuem superfície totalmente monolítica e sem porosidade. Com a utilização das juntas termosoldadas, as mantas possuem a condições de serem totalmente impermeáveis.  Podem ser lavados.

Dentro ainda do quesito pisos, um novo tópico está presente na hora da decisão da escolha do piso, a sua cor.  Não há restrições quanto ao uso de cores, mas as claras ainda são amplamente utilizadas, pois, além de permitir a rápida visualização de sujeiras possuem a conotação de limpeza e conferem amplitude do ambiente.  Não menos importante, se encontra a definição do aspecto final da superfície acabada, lisa, brilhante, “casca de laranja”, ou ainda, levemente derrapante.

Apesar de todo o rigor seguido para pisos de salas limpas, o mercado tem buscado novas formas de sair do padrão de cores definido há anos para os pisos, segundo Adriana Bianchi, arquiteta de processos sênior na Nordika “Uma novidade relacionada a pisos para salas limpas é a chegada ao mercado de pisos decorados, porque antes era apenas o cinza, ou outra cor na mesma linha. A tendência é o piso de quartzo, ele vem com partículas de quartzo, são os pisos multilayer, apresentado em várias camadas. Desta forma, pode-se escolher uma cor, que resultará num padrão diferente. Acredito que, as empresas estão querendo hoje em dia, não só deixar a fábrica funcional, mas, também ter um ambiente bonito, um pouco mais decorado”

Ainda dentro do tema pisos para salas limpas, muitas informações estão no mercado, como, para os pisos monolíticos com bases em resinas, tem-se agora a opção de se utilizar resinas metacrílicas, os agregados cerâmicos, as fibras de carbono e as microesferas de vidro.

A utilização de microesferas de vidro, também se apresenta como uma nova tendência de utilização disponível no mercado, com principal característica de alta resistência a impactos, à abrasão e a riscos superficiais. Por possuir em sua última camada exclusivamente microesferas de vidro e resinas, este revestimento não possui poros ou características de absorção, apresentando uma superior resistência à ataques químicos e estabilidade da cor. Sua desvantagem reside no custo elevado por se tratar ainda de tecnologia importada.

Nas opções em pisos vinílicos, como material importado, têm-se a possibilidade de se aplicar revestimento em manta vinílica que possuem certificação aprovada junto ao FDA para utilização em áreas até ISO 4 e GMP – Classe A.  São pisos em manta, indicados para as áreas onde o controle da qualidade do ar e desinfecção são fundamentais em salas limpas, áreas de esterilização etc. Possuem a característica de ser fungistático e bacteriostático, sem possibilidade de crescimento de microrganismos. Atendem a EN 61340-5-1: não retém as partículas presentes no meio ambiente, o que facilita a descontaminação da superfície e aos rigorosos padrões necessários para a limpeza e controle biológico.  Atende a ISO 14644-1 para uso em salas limpas em relação a concentração máxima permitida de partículas, como também a classificação da contaminação molecular no ar (AMC). São resistentes ao peróxido de hidrogênio líquido e vaporizado, utilizados em desinfecção de salas limpas.

A compra, o pós-venda e a instalação

Após a definição do piso, vem a compra e a instalação, momento de extrema relevância, quando diversos detalhes devem estar no radar do decisor, para que o resultado seja o esperado e adequado, como:

  • Especificação completa do piso monolítico de alto desempenho que deve definir sua espessura de aplicação em função da resistência ao impacto e da base sobre o qual será aplicado: quanto maior for a necessidade de  resistência ao impacto, devido à possíveis quedas de objetos ou esforços constantes sobre o piso, e maior a irregularidade existente na superfície sobre a qual será aplicado,  maior deverá ser sua espessura para absorver os impactos e  eliminar imperfeições.
  • Especificação do acabamento superficial deve levar em conta as condições necessárias para atender a função das salas onde será aplicado: áreas que requerem maior facilidade de limpeza e de higienização devem ter superfícies mais lisas. Áreas de lavagem, molhadas, devem ter superfície que as torne menos escorregadias, mas que ao mesmo tempo não sejam totalmente antiderrapantes, para não dificultar a sua limpeza.

Item de grande importância na especificação correta da resina a ser utilizada é a sua resistência à abrasão ou riscos, para áreas que possuem alto tráfego ou estão sujeitas ao arraste de materiais como pallets ou circulação de carrinhos. Esta resistência se relaciona à presença de materiais de alta dureza na superfície do revestimento (quartzo, óxidos, materiais cerâmicos).

Para Silvana Costalunga, da área de vendas da ACE Revestimentos, empresa importadora de soluções para pisos, “Um dos itens mais importantes após a compra é a instalação, que vem seguida por diversas etapas, como a de extrema relevância, que é a visita prévia para validação do contra piso. Porque não adianta nada, comprar o produto correto, que atende as normas internacionais e brasileiras, o adequado para a resistência química, a resistência mecânica, que atenda à norma ISO, mas, o contrapiso não está adequado para receber o piso, está poroso, sem planicidade ou com buracos. Este cuidado é essencial para que não se perca a qualidade do produto, assim como, a sua garantia. A visita prévia com a equipe técnica, permite que correções prévias sejam feitas se necessárias, para que o ambiente esteja adequado para receber o piso”.

Outro ponto de atenção, que se depara com uma dificuldade real é aliar uma superfície que seja lisa e ao mesmo tempo antiderrapante para oferecer maior segurança na movimentação das pessoas. O uso de maior rugosidade para evitar ser escorregadio, se contrapõe a necessidade de superfícies lisas, e de fácil limpeza. Assim, a condição do piso ser liso se sobrepõe, na maioria das vezes, sobre a condição de ser antiderrapante.

Silvana da ACE Revestimentos destaca ainda que” um outro segredo no resultado durabilidade do piso, que além de atender todas as etapas do processo do uso de pisos específicos para salas limpas, é ter uma equipe qualificada, mão de obra específica, que tenha o conhecimento técnico para atendimento a todas as etapas desde a venda, instalação e manutenção”

A validação do piso

No quesito validação de pisos para salas limpas, Nidia explica que “Em se tratando de sala limpa, a mesma deve ser submetida ao controle de quantidade de partículas e das condições de assepsia para monitoramento de eventuais contaminações no ambiente”.

O piso, por sua vez, deve ser submetido à validação microbiológica, como as demais superfícies no interior das salas limpas”.

De acordo com Nidia, “O monitoramento de pontos pré-determinados com a utilização de placas amostradoras deve ser realizado e executado logo após o uso da sala ou antes do procedimento de desinfecção. Executa-se a desinfecção da área com o produto definido em sua respectiva concentração. Após a secagem da superfície registra-se o tempo decorrido, e procede-se nova amostragem microbiológica da mesma”.

Nídia complementa, “o procedimento de amostragem dever ser repetido antes e após a desinfecção pelo menos 5 vezes e comparar os resultados obtidos. Com esta técnica, pode-se verificar a performance dos procedimentos de desinfecção adotados e a atuação do agente desinfetante sobre a flora microbiana presente nas superfícies selecionando, portanto, o produto/procedimento mais adequado à atividade requerida, conforme definido nos métodos gerais de esterilização”.

A manutenção dos pisos

Os pisos de sala limpa devem sempre atender às condições de limpeza, uniformidade da superfície, livre de riscos e de imperfeições.   Para lavagem do piso recomenda-se usar água e sabão neutro. Quando do suo de água quente para lavagem dos pisos, o mesmo deve estar com temperatura inferior à 60ºC.

Os pisos sofrem sob a ação de algumas substâncias ácidas mais agressivas, as quais em contato sobre as superfícies ocasionam manchas e degradam o revestimento. Todos os pisos possuem fichas técnicas, onde são relacionadas suas características e a resistência aos diversos produtos químicos, abrasivos, definindo assim a adequada especificação para o piso.

Em uma sala limpa, quanto maior for sua classe de limpeza, de acordo com o procedimento, as pessoas não devem se movimentar com excessiva rapidez, as atividades devem executadas cuidadosa e criteriosamente para que se evite a geração de partículas. Sapatos de uso industrial ou proteções adequadas com melhores condições antiderrapante, podem ser um aliado para a segurança dos funcionários destas áreas.

Superfícies ligeiramente antiderrapantes são adotadas em áreas de lavagem, por meio da adição de quartzo em quantidade previamente determinada, onde a presença de água pode comprometer a segurança de forma mais acentuada.

O uso constante dos ambientes em atividades de produção, com tráfego de pessoas e movimentação de materiais, fazem com que a superfície se desgaste, e que se mantenha em manutenção para garantia sua condição de limpeza e que evite contaminações. Pintura periódica sobre os pisos em resina epóxi ou poliuretano devem ser previstas. Reparos necessários para manter as superfícies sempre integras, devem fazer parte do plano de manutenção geral das áreas limpas.

Manutenções periódicas devem ser mantidas para que em casos de problemas com o piso como trincas ou desgastes, sejam corrigidos e não comprometam sua performance ou sejam pontos de eventuais contaminações

Em casos mais extremos, a área deve ser parada para que seja feito o reparo do piso. Como manutenção preventiva, a repintura das superfícies devem ser previstas periodicamente, de forma a manter o piso sempre com boa aparência, livre de pontos de desgaste, riscos e de imperfeições.

Uma pintura renova substancialmente a aparência visual e a conservação do piso, mas, deve ser feita sempre sobre a superfícies totalmente livre de trincas e de irregularidades, para manter sua condição uniforme e impermeável.

O fato é que, de acordo com Adriana da Nordika “Se o piso tiver a manutenção realizada conforme a fabricante específica em seus catálogos, que normalmente é lavar com água e sabão, secar com panos adequados, entre outros cuidados, não perderá a qualidade. A qualidade se perde mesmo com o uso, no dia a dia, mas, se a empresa fizer a manutenção correta, com as paradas de fábrica previstas para a manutenção ao piso, para que o mesmo se mantenha com suas características, o piso pode ter vida útil até de décadas”.

 

 

Fonte:http://revistasbcc.com.br/edicao-90/pisos-para-salas-limpas/

Particiapação especial: Adriana Bianchi (Arquiteta Sênior na Nordika do Brasil).